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Quando a Violência Não É Física

17 de maio de 2012

Lá pelos meus doze anos, meu pai parou de me bater. Em primeiro lugar porque ele não é de bater em quem tem mais ou menos o tamanho dele (ele gosta mesmo é de bater em criança), em segundo lugar, porque ele não morava mais conosco. O casamento com a minha mãe tinha acabado e ela ficou com a guarda (algo que ele também nunca contestou).

Aí, como eu já estava crescida, a violência passou a ser psicológica. Era ele fazendo de tudo para me colocar para baixo. Para me fazer sentir um nada, um ser sem importância, uma pessoa que, a bem da verdade, não merece o ar que respira.

Em primeiro lugar, qual era a frase principal (e que, em 90% dos casos já é capaz de minar a auto-estima de uma mulher)? Que eu era/estava gorda. GORDA. Com 50kg. E 1.63m.

“Você tá gordinha, hein? Precisa perder essa barriga!”

Aí, a outra ofensa preferida era falar que eu era burra. Burra porque não sabia lidar com as “críticas construtivas” dele (que, afinal, só queria o MELHOR para mim), burra porque nunca fui de politicagem, de tratar bem quem me trata mal ou de tratar bem alguém para obter vantagens. Burra porque não passei em faculdade pública, burra porque… porque… ah, porque eu era burra mesmo.

Aí anos eu tentando provar para ele (e para mim) que eu era inteligente. Passei na OAB na primeira tentativa. Passei num dos primeiros concursos públicos que tentei após terminar a faculdade. Até teste de QI eu fiz.

Mas, eu sou “burra para a vida”, segundo ele.

E a que fez com que a minha madrasta quase batesse nele, foi quando ele disse que eu era feia (todos dizem que sou linda). O motivo? É que como eu tomei mamadeira, o meu lábio superior é menor do que o inferior. Isso faz de mim uma pessoa feia.

Num dia, quando eu já era adulta, ele me criticou por alguma coisa, acho que falou, pela enésima vez, que era uma chata (na frente de amigos e familiares) e eu falei “Ah, você já acha que eu sou feia, gorda e burra, mais uma coisa ou outra não faz diferença”.

A resposta? “Nunca falei que você era feia”!

Gorda e burra continuam valendo, viu?

Não é difícil você minar a autoconfiança de uma pessoa. Para mim, além das constantes agressões verbais, ficava martelando na minha cabeça que o meu pai me achava feia. Gorda. Burra.

Isso e o fato dele NUNCA demonstrar preocupação por mim.

Isso e o fato de sempre querer me fazer sentir culpada por qualquer coisa que acontecesse.

Isso e ele falar que ninguém NUNCA iria gostar de mim (ah, essa vem desde a infância).

Até a morte de uma pessoa querida ele quis imputar a mim.

As surras que levei dele, bem como toda a violência não-física me marcaram. Marcaram a ponto de prejudicar meu relacionamento com outras pessoas, a confiança na minha capacidade, etc.

A violência não precisa ser física para deixar marcas. Sei disso. Aliás, a violência, qualquer que seja, pode não deixar marcas visíveis, mas é violência do mesmo jeito.

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4 Comentários leave one →
  1. 23 de maio de 2012 22:19

    Nossa, que pessoinha pequena e infeliz o seu pai. Se você fosse tudo o que ele dizia, ele não ia perder tempo dizendo. O nome disso é inveja. Inveja da sua juventude, beleza, simpatia e inteligência (quem desdenha quer comprar). Olha, preste atenção, em geral vemos nos outros aquilo que não queremos ver em nós, por isso é sempre bom se observar quando estamos desfazendo de alguém… Ele projetou em você tudo aquilo que ele na verdade achava que ele era. Isso é um processo paranoide-esquizoide, para usar um termo da psicanálise. Sim, seu pai é um esquizoide de primeira. Jogou todo lixo psíquico dele em você.

  2. 23 de maio de 2012 22:26

    Andrea, mil beijos e corações para você! 🙂
    É incrível como essas coisas mexem com a nossa psique, com o nosso ego, com a nossa vida. Aí você tem que passar a vida adulta inteira tentando descontruir o que os pais (no caso, o meu pai) fazem contigo. É impressionante.
    Resultado de tudo isso: ele nunca fez terapia. Eu entro e saio de consultórios de psicólogos/psiquiatras desde os 12 anos. Hoje, graças a deus, aos deuses, a um nutricionista holístico (acho que é a melhor palavra para descrevê-lo) já estou com um pé para fora do, espero, último consultório de psicanalista que vou frequentar.
    Life can be so good!! 😉

  3. Léa permalink
    23 de maio de 2012 23:36

    Querida, você é um vitoriosa. Não sei o porquê de tantos homens, mesmo velhos, serem vidrados tanto no corpo, coisa que o tempo nos mostra que não é o importante, e não na saúde. Gastam tanto tempo tentando mostrar o quanto as mulheres são menores ou seriam melhores se tivessem nascido homens… Isso é tão triste. Mas você está de parabéns pela forma como conseguiu superar tudo isso. Tenho certeza que todo esse seu empenho nesse blog vai ajudar a muitas mulheres a também se superarem, curarem suas feridas, colocarem pra fora o que as machuca.
    Muito amor pra você!

  4. Micheline Zadisque permalink
    27 de outubro de 2013 21:48

    Você é uma vitoriosa, fico orgulhosa por sua superação, que a sua vitória sirva de exemplo para outras pessoas.

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