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Por Um Mundo Cor-De-Rosa – Falando em Ídolos

29 de junho de 2012

O post hoje é cor-de-rosa. Não por minha causa, óbvio, mas em homenagem a quem eu vou falar.

Não gosto de dar nomes. Por mais que eu divulgue uma coisa ou outra, gosto de deixar o blog semi-anônimo.

Tenho uma amiga. Uma promotora de justiça que conheci em 2002, quando fui estagiária no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. À época eu era uma reles estagiária e ela era recém concursada. Chegou à Promotoria na qual eu estagiava por um acaso.

Era uma promotoria problemática. O(a) titular estava fora havia mais de um ano. Os processos que chegavam iam acumulando. Ninguém respondia por eles e nem se responsabilizava;

Durante os 12 meses que passei por ali, uma leva de promotores assumiram apenas parcialmente o local, os processos. Ninguém queria tomar para si a responsabilidade de dois MIL processos acumulados. Afinal, não era responsabilidade/culpa deles.

Eu conto essa história por ter sido emblemática para mim.

Um dia chegou essa jovem promotora adjunta. Não era titular de coisa alguma. Não tinha mais do que trinta anos e, provavelmente, toda a vontade de mudar o planeta a partir da sala que assumia.

Não me esqueço e, provavelmente, nunca esquecerei, aquela tarde em que ela perguntou se eram muitos os processos acumulados. Lembro que o secretário e eu trocamos um olhar e respondemos “sim”. E ela, surpreendentemente, pediu que trouxéssemos todos (TODOS) os processos que estavam parados.

Não eram poucos. Eram mais de mil. Mais de dois mil, se não me falha a memória. E essa promotora, idealista e adjunta, pediu para que buscássemos os processos e deixássemos na sala da promotoria.

Quem era aquela pessoa? Aquela “doida” que nos solicitava, com toda a calma do mundo, os processos que ninguém queria?

Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Aos montes, fomos enchendo a sala da promotoria com processos de todos os tamanhos. Quem trabalha com direito sabe que cada processo é único. Cada um conta uma história e merece atenção.

O que eu sabia era que ninguém, nunca, quis ver esses processos. Ninguém queria saber. Exceto essa promotora jovem, idealista, recém concursada.

Entregamos os processos. Todos. Depois fomos, juntos, separando os processos entre os mais simples e os mais complexos. Alguns só precisavam do visto da promotoria, outros precisavam de um parecer.

Essa promotora olhou cada um. Respondeu cada processo. Dedicou atenção a cada um.

Só que ela não estava atuando “só” nessa promotoria de processos parados. Ela estava atuando em uma das promotorias de família.

Eram audiências que duravam a tarde toda. Audiências cansativas, exaustivas, que lidavam com o íntimo de várias pessoas, várias famílias. Audiências que discutiam a separação de bens, a pensão alimentícia dos filhos. Audiências que extinguiam casamentos e desatavam uniões.

Audiências que lidavam com seres humanos em momentos de estresse, tristeza, desilusão.

Audiências em que se discutiam a divisão de livros, panelas, televisão. Audiências em que se brigava por uma mesa, uma cama, uma pensão. 

E, após cada tarde, ela voltava à promotoria, com semblante tão cansado quanto determinado. Trancava-se na sala e era absorvida pelo trabalho.

Quantas vezes saí de lá admirada e inspirada? Pensava que era aquele o exemplo que gostaria de seguir.

Em dois meses ela acabou com os processos que estavam parados. Isso acumulando duas promotorias e fazendo audiências praticamente todas as tardes.

Vejam bem, exceto pela minha mãe, não tive lá grandes exemplos de pessoas batalhadoras. Ainda nos primeiros semestres de faculdade, descobri que gostaria de ser promotora de justiça. Antes de passar no concurso para estagiária. Antes de sequer poder fazer o concurso. Mas, confesso, era a remuneração e o status que me seduziam. Não o trabalho.

Hoje, se for para ser promotora, será diferente. Não quero pelo dinheiro ou pelo status ou por qualquer coisa que o valha. Quero para fazer diferença.

Quando essa promotora foi promovida, de adjunta para titular, eu estava lá, no auditório, batendo palmas. Quando acabou o meu período de estágio, mantive ela no meu pensamento.

Cruzamos nossos caminhos algumas vezes (poucas) nos anos seguintes até, de fato, reencontrarmos.

Hoje ela trabalha com a defesa dos direitos da mulher.

Diariamente ela escuta depoimentos que só posso imaginar.

No ano passado nos reencontramos de verdade. Sentamos, conversamos, começamos a construir uma amizade. Conheci a família dela. Os filhos, o marido, os amigos.

Hoje, não raro, ela está na promotoria (hoje titular) até tarde da noite. Nos fins de semana e feriados, inclusive.

Não é raro comentar de uma mulher abusada que passou por sua mesa, que sentou à sua frente e lhe contou a história.

Não raro está demasiadamente cansada para sair.

Seu nome, ocasionalmente, estampa uma notícia. Uma equipe já lhe homenageou.

Ela esteve à frente do projeto de Proteção Integral à Mulher em Situação de Violência.

Com tudo isso, como não admirar? Sério.

Ela, anonimamente, trabalha diariamente combatendo a violência. Trabalha além do esperado. É aquela pessoa que faz aquele algo a mais, quando todo o resto faz o mínimo necessário, o mínimo obrigatório. E ela, em momento algum, demonstra qualquer afetação por fazer o máximo. Ao contrário, parece apenas questionar internamente porque as outras pessoas não se dedicam tanto.

Ela não é esnobe, não é orgulhosa. Ao contrário, é simples, acessível, atenciosa. Trata todos como iguais.

Por vezes penso que ela vestiu óculos cor-de-rosa e vê o mundo com olhar idealista. Daí a cor do post.

Eu sou bem mais cética. Talvez  o mundo tenha me decepcionado mais, talvez, simplesmente, ela tenha uma visão mais correta do mundo do que eu.

Talvez seja pura utopia.

Não sei.Sei que ela segue tendo a minha admiração.

É a personificação do trabalho, da dedicação, do amor ao próximo.

Tenho orgulho de ter trabalhado com ela e de poder chamá-la de amiga.

Hoje passamos um bom tempo conversando por mensagens de celular. Tive que escrever.

Sabe, são essas pessoas que me inspiram. De verdade.

São tantos os servidores públicos que ficam acomodados e não fazem mais do que o necessário que, sim, temos que admirar quem vai além e inspira outros a seguirem seu caminho.

Por isso, querida amiga, este post é para você. Que anonimamente ele eternize esse trabalho lindo que você faz diariamente.

Beijos.

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2 Comentários leave one →
  1. Léa permalink
    29 de junho de 2012 17:35

    Adorei! Super inspirador!
    Beijos!

  2. 30 de junho de 2012 0:15

    É uma pessoa fantástica, Léa!! De verdade! Admiro demais mesmo!

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